O SONHO DE NOVA YORK

É muito bom poder voltar a dividir com vocês a minha experiência na maratona de Nova York. O último domingo jamais sairá da minha lembrança e cada metro da prova será devidamente eternizado.

O amigo Humberto Peron me pediu que eu fizesse uma espécie de diário dos quilômetros, dividindo as emoções de cada um dos 42 mil metros. Apesar da ideia ser bem bacana, confesso que não consegui atingir este nível de concentração, mas vou tentar contar o que de mais importante me marcou na prova e antes dela também.

Cheguei a Nova York na quinta-feira anterior à maratona, no primeiro dia da famosa Expo. Deixei as coisas no hotel e parti para o Javits Center, o centro de convenções que recebe os 50 mil corredores e seus acompanhantes. Não há a menor dificuldade em retirar seu número em baías separadas para cada 500 competidores, por baixo, então, são 100 blocos com duas pessoas em cada um deles te recebendo com sorriso e muita atenção. Com o número na mão é hora de retirar o kit e a camiseta. Apesar de ter feito a indicação da dimensão da camiseta na hora da inscrição, você ainda pode experimentá-las e, se possível, trocar o tamanho hora.

Entrada da Expo no Javits Center

Feito isso é o momento de entrar no local dos expositores. Para atingir este ponto é preciso, obrigatoriamente, cruzar o stand da principal patrocinadora, a Asics. Um espaço enorme com tudo que se pode imaginar de produtos ligados à maratona. É muita gente comprando, muita gente ajudando e uma infinidade de caixas registradoras para dar conta da enorme movimentação. Só senti falta de um local mais adequado para experimentar as roupas, o provador era muito pobre comparado ao restante da estrutura. Depois de passar pelo stand da Asics você cai no restante da Expo e aí são dezenas de expositores negociando de tudo, incluindo as outras grandes marcas esportivas que mantém vendas ali também. Você pode perder umas boas horas olhando tudo.

No dia seguinte, o trote para tirar o avião do corpo no Central Park é algo incrível. Ali já é possível vivenciar o clima da maratona. Centenas de corredores falando as mais diferentes línguas percorrendo as belas alamedas do famoso cartão postal nova-iorquino. A estrutura já está toda montada e é possível sentir uma energia incrível naquele lugar. Eu e a Bete acabamos encontrando o professor Mário Mello e o Marcus, atleta da Achilles, terminando o trote deles. É legal dar esta passada por lá pra poder visualizar e mentalizar os últimos metros da sua glória que virá dois dias depois.

Com Marcus e Mario Mello na sexta-feira, na linha de chegada da maratona

Aproveitei o restante da sexta para visitar meu companheiro de Fôlego - e parceiro -, Sergio Patrick. Assim, do estúdio montado na casa dele, gravamos o programa que foi ao ar no dia da prova. À noite fomos ao jantar de massas da Achilles, convidados pelo Mário Mello, que é o representante da entidade no Brasil. São dezenas de atletas deficientes de todo o mundo, delegações entusiasmadas por representar suas nações. O evento termina por volta das 21h00 e da pra voltar à pé ao hotel, apreciando o agito da noite da Big Apple.

Comer em Nova York não é problema algum, todo mundo sabe disso. Assim como São Paulo, na esquina do mundo você encontra de tudo e aí pode estar um problema. Há uma oferta enorme de tentações, mas o segredo é se manter firme para não enfiar o pé na jaca na véspera do grande dia. No sábado eu comi macarrão no almoço e no jantar e às 8 da noite já estava na cama, lembrando que o horário de verão americano terminaria naquela noite, o que significou uma hora a mais de sono.

No domingo o relógio despertou às 4h15. Muita gente se diz ansiosa no dia de uma maratona. Eu dormi muito bem, dentro dos meus padrões de sono. Consegui relaxar e acordei muito bem disposto.

O combinado é que iríamos para a ponte Verrazano no ônibus da Achilles, com a delegação brasileira. O horário de partida, na 5ª avenida com a rua 37, era 5h30 da manhã, mas o nosso metrô demorou muito para passar e acabamos nos atrasando. Mas o Marião é parceiro e nos esperou, sozinho, para irmos juntos. Acabamos indo no ônibus dos guias e isso nos ajudou muito. Os americanos respeitam demais tudo que envolve os deficientes e seus direitos. Os batedores levaram o ônibus até a tenda da entidade, que fica bem ao lado da largada. Ali tomamos um belo café da manhã, levamos um cobertor usado para dar uma esticada no gramado e relaxamos por um bom tempo antes da partida.

Na estrutura da Achilles e com a ponte Verrazano ao fundo

Aqui é preciso lembrar de algo importante. Maratona de Nova York, na grande maioria das vezes, é com frio. Mas este ano as médias das temperaturas estavam mais altas do que o normal, por isso toda a roupa que levamos não teve muita utilidade. Os 10 graus eram bem suportáveis e nem o temido vento que castiga a região deu o ar da graça. Estava um clima muito confortável e um céu azul maravilhoso, do jeito que eu adoro. Deus foi brilhante conosco!

A minha onda era a segunda, com largada às 10h15. Porém, às 9h30 o pessoal da Achilles pediu para que todos fossemos para a largada porque a estrutura deles seria desmontada. Então, além de entrar bem na frente da minha onda, ainda permitiram que eu largasse às 9h50. A Bete, que iria partir às 11h00, também pulou na frente. Ali, ao pé da ponte, imaginei que estaria ansioso, mas eu seguia incrivelmente equilibrado, tranquilo, observando aqueles milhares de maratonistas. Eu gosto de imaginar a estória que cada um leva consigo para aquela linha de largada. As dores, os sofrimentos, as glórias. Fico pensando o que se passou para poder estar alinhado em uma prova difícil como aquela. Em maratona não existe aventureiro, ali todos levam o negócio a sério.

Então começam os discursos, os agradecimentos, a apresentação dos atletas de elite e a execução do hino nacional. Silêncio sepulcral. Passado o protocolo, chega a hora tão esperada. O tiro de canhão é de arrepiar e o Frank Sinatra cantando New York, New York te empurra à frente, te dá energia extra. Aquele era um momento que eu sempre sonhei vivenciar e tenho tudo bem registrado na memória.

A prova larga subindo a longa ponte Verrazano. Minha onda era a da parte inferior, por isso meu Garmin não registrou quase dois quilômetros. Apesar da enorme quantidade de pessoas é possível imprimir um bom ritmo. Eu havia combinado com o Cláudio Castilho que queria fazer uma prova conservadora, eu queria vivenciar a festa das ruas, sentir a energia das pessoas e curtir o máximo possível. Defini que iria correr a 5 minutos por quilômetro até o ponto mais próximo da chegada. Esse era um ritmo bem confortável para mim. E assim começou a brincadeira. Mesmo na subida da ponte e com a grande quantidade de corredores , consegui seguir bem. Porém, no topo da ponte, deu para sentir a potência do vento nova-iorquino. Umas rajadas geladas, para quem ainda estava se aquecendo, pareciam cortar o esqueleto.

Quatro quilômetros depois estávamos entrando no Brooklyn. Meu Deus, o que era aquilo. O domingo de sol e temperatura agradável levou todo mundo pra rua. Ali eu não consegui me segurar, era tanta gente gritando, tanta criança esperando por um toque na mão, que comecei a chorar. Lembrei da Larissa e do Murilo, do tempo que esperei para estar ali, e as lágrimas se misturaram com o suor no rosto.

Muita gente na calçada do Brooklyn

Fiz questão de correr a prova toda na borda da rua para poder interagir com o povo. No meio seria muito melhor para a performance, mas resultado não era o objetivo e eu não hesitei em olhar o máximo possível para cada rosto que estava ali na calçada. Os caras te olham admirados, com respeito, você se sente abraçado por eles.

Tinha muita gente no Brooklyn. Crianças batendo na sua mão, adultos com cartazes de incentivo ou oferecendo água, fruta e até toalha de papel para você enxugar o rosto. Eu queria agradecer um por um, mas acho que eles também recebem uma boa energia de volta dos corredores. Eu jamais vou me esquecer de tanta coisa boa que vivi naqueles minutos.

A medida em que ia avançando, procurava me certificar de que o ritmo estava dentro do programado. Minhas parciais estavam precisas e eu me sentia muito bem. Aquele ritmo confortável que estipulei foi um achado. Terminaria em um tempo razoável para mim e ainda estava curtindo toda a festa.

Chegou a segunda ponte, dividindo o Brooklyn do Queens. Coisa leve, sem grandes problemas. A multidão também tomou conta do novo bairro a ser percorrido, mas senti que em um número menor (e menor aqui pode ter certeza, que mesmo assim, significa muita gente), mas não menos entusiasmada.

Maratonistas e o público se misturam nas ruas

E no Queens surge a famosa ponte Queensboro. Os mil cento e trinta e cinco metros de extensão não assustam. O problema aqui é que você já está no quilômetro 26 e a inclinação é bem razoável. Mesmo assim segui firme no meu ritmo e quase no topo ouço um grito: “blue chair, blue chair”. Olho para trás e um guia da Achilles vem em um ritmo alucinante empurrando uma cadeira com uma criança deficiente a bordo. Na subida, a uns 4’30” por quilômetro e impulsionando o garotinho. A galera abre caminho e o cara é olhado com admiração por todos.

Então começa a descida e me preparo para um dos pontos altos do evento, a famosa entrada na 1ª avenida, em Manhattan. Ali comecei a me lembrar do amigo e maratonista Ricardo Chester, que sempre afirma ser aquele lugar algo emblemático. E ele tem razão.

Dobrar a enorme via à esquerda e dar de cara com uma multidão lotando as duas calçadas é de tirar o fôlego. A gritaria é ensurdecedora, câmeras de TV captam todos os momentos e eu não tive dúvida, fui pra galera para mais um monte de high five, o toque de mão. E tome emoção transbordando por todos os lados.

A 1ª avenida é enorme, tanto na largura como no comprimento. Mas não menos vazia. Foram uns bons 6 quilômetros percorridos ali e já começando a mentalizar a chegada. Nesse ponto a prova ganha um ar de desconcentração. Se você perder o foco pode começar a virar o fio por conta da paisagem “monotemática” por tanto tempo.

Encerrado este trecho chega a penúltima ponte, que liga Manhattan ao Bronx. Essa é bem mais curta e leve.

Eu esperava mais gente no Bronx. Insisto, não que houvesse poucos pedestres, mas ali havia o menor número de entusiastas. Mas os que estavam lá receberam meu toque de mão e o agradecimento no olhar. O trecho no Bronx é, proporcionalmente, curto e rapidamente se alcança Manhattan novamente através da lendária 5ª avenida. Trata-se do trigésimo quinto quilômetro aproximadamente.

Foi a partir deste ponto que comecei a perder um pouco do meu ritmo. É verdade que este trecho é formado por um longo e suave aclive, mas eu tentava tirar mais um pouco das pernas e a resposta não vinha. Era difícil baixar de 5’30”, 5’40” por quilômetro, mas isso não me preocupou afinal eu já havia criado uma bela poupança de tempo nas mais de três dezenas de quilômetros acumulados até ali. Seguia firme no propósito de terminar inteiro e feliz.

A entrada no Central Park, na altura do 38K é impressionante. Tinha muita gente ali. E incentivo e barulho. É impossível alguém deixar de correr neste ponto, por mais dificuldade que se tenha. Você sente o calor do povo te empurrando, te lançando à linha de chegada. Aproveitei para desfrutar todo aquele visual, a mistura das cores das árvores. E o sobe e desce característico do local. E quanto mais se aproxima da chegada mais gente presente.

Finalmente, avisto a placa dos últimos 800 metros. Eu tinha a sensação de que iria desabar de emoção próximo à chegada, mas não foi isso o que aconteceu, talvez por falta de estoque. O fato é que me lembro perfeitamente de toda aquela atmosfera da chegada, e nos últimos 200 metros, na famosa subidinha da linha de chegada, arranquei as últimas forças das pernas para um sprint final e cruzar sorrindo em 3h35m25s.

A área de dispersão é muito bem organizada, há tempo apenas de posar para o fotógrafo oficial com a medalha no peito e você já é gentilmente conduzido à frente.

Precisava esperara a Bete chegar e me dirigi à tenda da Achilles, onde também estava a minha mochila no guarda-volumes exclusivo da entidade. Ali, com direito a massagem, capa térmica e a uma sopinha quente deliciosa, você vai desfrutando dos momentos incríveis.

Medalha na mão e sorriso no rosto

A maratona foi tão perfeita para mim que não senti uma dor muscular no dia seguinte. Na segunda-feira andei por Nova York como se nada tivesse acontecido no domingo.

Talvez pudesse ter feito um tempo melhor se este fosse meu objetivo. Mas para que pendurar 5 minutos a menos na parede se eu estava ali me divertindo?

Esta foi minha segunda maratona, conheço praticamente nada das demais, além de ler e ouvir relatos sobre as mais diferentes provas pelo mundo. Mas do que vivenciei, posso garantir que Nova York é o tapete vermelho das maratonas e você é a estrela da festa.

Bem, para realizar o sonho de comemorar meus 50 anos de vida e 25 anos de casamento correndo em Nova York eu preciso agradecer a Asics. A marca esportiva me convidou e me deu todo o suporte para que este relato fosse possível. À Taty Mutaf, Marina Issa e Thaise Oliveira, do time de marketing da empresa, muito obrigado.

Também preciso agradecer a parceria e apoio do Gustavo Magliocca, que através do Care Club, o espaço de excelência da medicina esportiva mantido por ele em São Paulo, me deixou em condições clínicas perfeitas.

Lá no Care Club a 4 Perform mantém um núcleo de preparação física de primeiro mundo. Eu estava muito enjoado da musculação tradicional e o trabalho feito pela Patrícia Vidal foi incrível. Realizei meu ciclo de treinamento sem nenhuma lesão séria e me senti forte o tempo todo.

O Cláudio Castilho sempre foi muito cuidadoso com os volumes de treino. Essa é uma equação sútil para quem tem um histórico de lesões, por isso o treinador estava sempre atento e pronto para fazer os ajustes necessários, sem esquecer que é sempre bom colocar um pouquinho de performance nessa conta também.

E finalmente aos meus filhos. Um casal não se prepara para uma maratona tranquilamente se os filhos não compreendem e não abraçam o projeto. A Larissa e o Murilo foram grandes parceiros e incentivadores, por isso nosso agradecimento e reconhecimento por “perderem” os pais em vários momentos nos últimos meses.

E obrigado a você, que chegou até aqui nesta leitura e que nos mandou boas vibrações e energias. Ter tanta gente te empurrando é sempre muito bacana.

E se você também tem um sonho a realizar, não desista dele. Se não for a maratona, que seja nos primeiros 5 quilômetros, 10, ou a distância que for. Transforme o seu sonho em uma meta a ser alcançada e seja muito feliz.

Coma bem, corra bem, viva bem!


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